Turma acima dos 60 anos leva vantagem sobre jovens para arranjar trabalho.
Enquanto a população ocupada com mais de 60 anos cresceu 8%, a de trabalhadores entre 25 e 39 anos teve um aumento de 0,9% no primeiro trimestre de deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Os dados estão na Análise da Carta de Conjuntura do Instituto de pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a partir de informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, divulgada nesta segunda-feira, 25.
Entre aqueles com ensino médio incompleto, a ocupação se expandiu 10%, mas ela recuou 9% para os que têm apenas o ensino fundamental.
Ou seja, ter mais de 60 anos e alguma bagagem educacional se transformou hoje no País uma vantagem competitiva.
Mas há uma boa explicação para isso, como demonstra Kelermane Martins, presidente da K&M Group de Natal, especializada em gestão de pessoas.
Acompanhe a entrevista.
Agora RN: Como o senhor vê esse processo em que as pessoas maduras têm vantagem na disputa de uma vaga de trabalho em relação aos mais novos?
Kelermane Martins: Trata-se de um fenômeno que já acontece nos últimos 10 anos entre a chamada geração X (faixa acima 45 anos) e a geração Y (mais nova), que vem encontrando muita dificuldade para se inserir no mercado de trabalho.
Agora RN: Por que isso acorre com os mais novos?
KM: Essa geração tem um grau de instrução maior, mais acesso às tecnologias da informação, lidam bem com isso, mas é uma geração marcada pela baixa maturidade emocional para lidar com adversidades, conflitos, com situações de crise, que pautam os dias atuais no Brasil.
Agora RN: É um problema de base educacional?
KM: Foi uma geração recebeu uma carga de informação muito grande e acreditou – ou foi influenciada a acreditar – que investimento apenas no ensino e com base numa raiz puramente de conhecimento das ferramentas – ocuparia postos relevantes dentro das empresas e seria altamente bem remunerada.
Agora RN: E isso não acontece?
KM: Com algumas poucas exceções, não acontece. Mais, tem deixado muitos empregadores reticentes na hora de acolher essas pessoas.
Agora RN: Por que?
KM: Por exemplo, elas chegam na empresa e, em pouco tempo, já começam a ficar insatisfeitos porque o que eles ganham não atendem às expectativas delas. Querem crescer rápido em pouco tempo e isto não existe em nenhuma organização do mundo, exceto àquelas raras pessoas que conseguem pegar o vácuo de um de uma oportunidade. Querem promoções constantes e, quando isso não acontece, ficam visivelmente insatisfeitas.
Agora RN: O que mantem esses jovens ansiosos que os mais velhos conseguem administrar melhor?
KM: Ah, são muitas necessidades! De elogio e feedbacks positivos, por exemplo, como se precisassem constantemente de endossos constantes de comportamento. Por outro lado, lidam extremamente mal com a crítica, com o feedback negativo. E, quando recebem um, consideram o ponto final na vida deles na empresa.
Agora RN: A que o senhor atribui isso?
KM: Esse fenômeno advém das configurações familiares, até pelo fato de pai e mãe estarem hoje muito comprometidos com a sobrevivência e não encontrarem mais tempo, como antigamente, para acompanhar a vida dos filhos. Com essa ausência, essa falta de reforço emocional, essa correção de rumos, ficou um buraco no processo.
Agora RN: E é nesse ponto que os “coroas” levam vantagem?
KM: Essa geração dos 60 é uma em especial cuja expectativa de vida se elevou, alguns têm uma qualidade similar à de uma pessoa de 40, com vigor, disposição e maturidade emocional. E as empresas, especialmente em momentos de crise, têm optado por esses profissionais que já se aposentaram ou estão próximos a se aposentar, mas que mostram um grande comprometimento e engajamento com os propósitos das empresas.
Agora RN: Há alguma outra atratividade na mão de obra mais velha?
KM: Tem sim. Em geral, essas pessoas não entram numa empresa por causa do salário e do conjunto de benefícios, elas buscam um alinhamento comportamental com o conjunto da empresa e isto faz toda a diferença. É quase uma afinação ideológica e filosófica com muitas empresas.
Agora RN: A recente reforma trabalhista ajudou nesse processo?
KM: A reforma trabalhista, de certa forma, ajudou sim ao promover contratos temporários que antes eram quase que exclusividade de um seleto time de consultores. Agora, eles podem prestar esse serviço sem assoberbar. As pessoas maduras não querem mais voltar ao ritmo de trabalho que tinham aos 30 anos, mas também não querem ficar desocupadas.
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